Um registro fotográfico da abertura da exposição

A abertura da exposição Os Nomes da Ciranda, no dia 28 de setembro, coincidiu com a realização na cidade do Paraty em Foco, um dos maiores festivais internacionais de fotografia no Brasil. Alguns fotógrafos participantes do evento prestigiaram nossa programação e contribuíram com o registro das atividades com belas fotos. Agradecemos à fotógrafa Joana França, dedicada à fotografia de arquitetura e cidades, pelo envio dessas imagens.

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Filme, café caiçara e ciranda na abertura da exposição Os Nomes da Ciranda

A exposição de fotografias e objetos conta com acervos cedidos por familiares

A abertura da exposição Os Nomes da Ciranda, na tarde da última sexta-feira, contou com a participação de mestres como Seu Lourenço, Seu Verino, Adail e Zé Malvão.

No salão da exposição, foi exibido “No tempo do chiba”, minidocumentário produzido pela equipe do projeto Paraty Ciranda. O filme conta com trechos de entrevistados relembrando os antigos bailes que animavam Paraty.

No sábado, foi exibido “Cantando verso”, que ilustra como a arte das rimas de improviso é parte da cultura dos cirandeiros.

Após a exibição dos vídeos, os mestres participaram de uma roda de conversa e “causos”, e logo depois armaram uma ciranda, que animou a praça de armas do Forte.

Uma mesa com quitutes típicos — biju, manuê de bacia, bolo de milho, cuscuz, café adoçado com caldo de cana — fez a alegria dos visitantes.

A exposição é o principal produto do Projeto Paraty Ciranda, que conta com apoio do Ibram em Paraty. O projeto, que envolve pesquisa e mapeamento da ciranda no município, foi realizado pelo Instituto Colibri e patrocinado pela Secretaria de Estado da Cultura do Rio de Janeiro.

Forte abre exposição nesta sexta com presença de mestres

A exposição Os Nomes da Ciranda, o principal produto do projeto Paraty Ciranda, estará aberta ao público a partir desta sexta-feira (28) no salão principal do Museu Forte Defensor Perpétuo. Na abertura, será exibido o primeiro dos quatro minidocumentários realizados pela equipe do projeto, “No Tempo do Chiba”, com depoimentos dos mestres cirandeiros sobre os antigos bailes na cidade. Logo depois, um bate-papo e uma cantoria com os mestres animam a tarde (confira a programação abaixo).

A exposição homenageia a música tradicional de Paraty e os nomes que fizeram sua história. Vídeos e fotos inéditos, infografias, painéis, músicas, instrumentos e objetos pessoais ficarão até janeiro no Forte para trazer ao público um pouco do espírito da ciranda.

Croqui da aderecista Fernanda Macedo para o salão principal

Aproveitamos para abrir este canal de comunicação com o público para que todas as pessoas ligadas de alguma maneira à memória da ciranda em Paraty ajudem a enriquecer a pesquisa com acervos, histórias e informações. Você pode procurar a equipe do Museu Forte Defensor Perpétuo ou contactar-nos por este blog.

Nossa equipe tem o prazer de convidar toda a comunidade de Paraty e visitantes para participar da programação de abertura, que terá início às 14h30 e continuará ainda no sábado. O evento é parte das atividades da 6ª Primavera de Museus, organizada pelo Instituto Brasileiro de Museus/Ibram, que este ano terá como tema “A função social dos museus”.

Confira a programação para este fim-de-semana:

DIA 28/09 – sexta-feira

14h30 | Apresentação do projeto

15h00 | Exibição do minidocumentário No Tempo do Chiba, produzido pela equipe do Projeto Paraty Ciranda, sobre os velhos bailes de chiba

15h30 | Café na Roda: “Limpa banco: o chiba na roça e a ciranda na cidade”, bate-papo temático com a participação dos cirandeiros Seu Lourenço, Seu Amélio, Seu Bento, Pedrinho e Seu Verino, acompanhado de café e quitutes caiçaras

16h30 | Ciranda com o grupo Os Coroas Cirandeiros

Dia 29/09 – Sábado

14h30 | Exibição do minidocumentário Cantando Versos, produzido pela equipe do Projeto Paraty Ciranda, sobre a arte da criação de versos e do improviso dos mestres cirandeiros

15h | Café na Roda: “Os Versos – Conversa de improvisação”, bate-papo temático com os cirandeiros Seu Amélio, Julinho e Zé Malvão, acompanhado de café e quitutes caiçaras

16h30 | Ciranda com o grupo Os Caiçaras

Foto do acervo familiar de Seu Zezinho da Ramira (1º à esquerda): uma das muitas imagens históricas da exposição que fica no Forte até janeiro de 2013

Seu Verino e Seu Dito, coroas cirandeiros

Moradores e visitantes de Paraty certamente já viram Seu Verino e Seu Dito da Laranja tocando cirandas no Centro Histórico, em frente ao antigo Paço Municipal. É ali que os integrantes do grupo Os Coroas Cirandeiros se apresentam nas noites dos finais de semana. Naturais do Rio dos Meros, os dois cirandeiros têm uma longa história de bailes e concertos, na roça e na cidade.

Em um agradável bate-papo em junho de 2012, na casa de Seu Verino, no bairro de Fátima, a dupla contou à nossa equipe histórias da infância na roça, dos primeiros instrumentos e bailes e da vinda para a cidade. Seu Verino abriu o arquivo pessoal de fotos, e junto com o velho amigo relembraram grandes mestres e parceiros do passado e falaram sobre os rumos da ciranda hoje.

Tradição de pai para filho

A parceria entre Verino de Barros e Benedito Alves de Souza é antiga. Seus pais, Manuel Pedro de Barros e Antonio Alves de Souza já faziam duetos de viola nos bailes do Rio dos Meros, em um tempo em que a dupla de violas era a base musical da ciranda. Antigamente não havia tanta variedade de instrumentos, como conta Seu Dito:

“Naquele tempo era duas violas, no chiba sempre tocava mais duas violas, e depois o cavaquinho. E o adufo, como chamava naquela época.”

Filhos de violeiros, Verino e Dito não herdaram a tradição das dez cordas. Na roça aprenderam a tocar os instrumentos de percussão da ciranda: Dito no adufo e no pandeiro, Verino na timba e na caixa. Mas Seu Verino, depois de migrar para a cidade, acabou se rendendo à vocação familiar para as cordas e especializou-se no bandolim.

Os bailes no Rio dos Meros

Verino e Dito guardam vivas as lembranças de bailes antológicos nas casas dos Marianos, de Benedito Maneco, de Benedito Teófilo e do próprio Manuel Pedro. Eram bailes que varavam a madrugada e terminavam com o sol a pino no dia seguinte. Boas também são as recordações das domingueiras, que Seu Verino explica:

Domingueira é dançar de dia como se fosse à noite. Então as damas iam embora, almoçavam e dormiam, e de tarde voltavam novamente. Ia até umas sete horas da noite. Era aquela alegria, aquela animação.”

Para chegar aos bailes, que sempre iniciavam com o chiba, o caminho era feito a pé, por chão batido e trilhas no mato. A satisfação do baile valia todo o esforço, inclusive o de tocar a noite inteira só pelo café.

Memória da Ciranda

Hoje, enquanto mantêm viva a memória musical da ciranda tocando as velhas modas na cidade, Verino e Dito rendem tributo a grandes mestres cirandeiros já falecidos, de quem falam com saudade. São nomes como o de Seu Binto (Benedito Alves), de Paraty Mirim, “o nosso violão”, nos termos em que gostam de lembrar; ou o pandeirista José Mariano, conhecido como Zezinho Chocalho, “um dos primeiros que tocou comigo na zona rural”, conta Verino.

O bandolinista, filho de Seu Manuel Pedro, sonha com o reconhecimento de seu trabalho pelas próximas gerações:

“Acaba as coisas… as coisas deviam ser bem divulgadas… como o nosso trabalho. Que amanhã eu não tô mais aqui, mas eu queria ficar numa história, pelos meus amigos e pela minha família. ‘Isso aqui foi meu pai que fez’… ‘tá aqui a foto dele, vocês querem ver ele?’… meus netos não vão me conhecer, eles vão conhecer através de outras pessoas: ‘vai na Secretaria de Cultura que você vai ver a foto dele e a música dele’. Isso é meu sonho.”

Mas, como a ciranda não é coisa do passado, seguem criando novas canções. E após tocarem a marrafa, a dupla de coroas cirandeiros se despede e brinda nossa equipe com a execução de duas músicas de autoria de Seu Verino, a “Pombinha branca” e “Dançar ciranda só dentro de Paraty”. Veja mais no vídeo:

No ritmo dos versos de Seu Amélio

seu amélio cirandeiro

A música sempre ocupou um lugar importante na vida do cirandeiro Amélio da Silva Vaz. Aos cinco anos de idade já cantava canoa e folia de reis com os irmãos, e acompanhava o pai nas festas de jongo.

“Onde eu não podia andar ele me carregava. Vinha de noite caminho a fora tocando pandeiro e tocando. Aquela cantoria e eu só prestando atenção.”

Aos seis aprendeu a tocar pandeiro, e aos dez já era tripe de folia de Reis. “Tripe faz uma terceira voz, aguda. Uma voz alterada, fina, no final, no descante”, explica o seu Amélio.

Não tardou a que se tornasse mestre de folia, precocemente, aos 17 anos: “Nós tinha um grupo muito bom, com viola, bandolim, cavaquinho, violão, pandeiro, triângulo, reco-reco.” Isso na Graúna, onde foi criado, depois que seu pai se mudou da Praia Grande, local onde Amélio nasceu.

Versos de memória e de improviso

Sua história ele conta em versos, em um poema de 28 estrofes que guarda na memória. Segue uma tradição que aprendeu ainda criança lendo clássicos da literatura de cordel, alguns dos quais ainda conhece de cor, como a História de Zezinho e Mariquinha, que recita do princípio ao fim.

Aos 79 anos, além da memória incrível para cordéis, canções e histórias, Seu Amélio é um dos poucos cirandeiros de Paraty a preservar a tradição dos versos rimados de improviso. Rima na própria conversa, e nos conta que no tempo do chiba as modas eram cantadas de improviso, como comentários sobre fatos do dia e gozação com pessoas presentes no baile:

“Qualquer coisa que viam, se viam uma moça namorando escondido já faziam uma moda, enfim, qualquer coisa que viam eles faziam uma moda pra cantar no chiba. O chiba era um meio de descobrir segredos, com melodia.”

Dom e tradição

Além da música e da poesia, Seu Amélio é conhecido na cidade pelo pé-de-moleque de gengibre que faz quase todos os dias. Ao longo da vida, como muitos mestres cirandeiros, foi lavrador e pescador. Chegou a tocar viola, mas com o trabalho árduo em Santos acabou deixando o instrumento de lado. Ficou com o pandeiro e a voz. E a memória, de que faz instrumento para a preservação de sua cultura:

“Isso aí vale ouro, né? Porque é difícil pessoas que tenham conhecimento das coisas passadas. Não tem, é muito raro você achar. Você chega pra uma pessoa da minha idade, e diz: ‘você se lembra de alguma coisa?’, ‘ah, não me lembro’. Isso aí são memórias que a pessoa vive praquilo, né? Vive praquilo ali e guarda.”

Amélio vê com resignação o desaparecimento de velhas tradições, consciente de que os processos de mudança e transformação estão sempre em curso. Afirma que muitas danças que já não se vê na ciranda deixaram de existir ainda nas décadas de 1930 e 1940, como os “dois amantes”, o “gavião” e o “passarinho”. Mas faz o que pode para preservar o que aprendeu. Sua viola, por exemplo, presenteou ao filho de um amigo que demonstrou interesse no instrumento, e hoje já faz apresentações públicas no Brasil e no exterior.

“Tudo isso tem história que pouca gente sabe. E vai desaparecendo, porque pouca gente se interessa em aprender. A única coisa que a pessoa traz de si, da natureza, é a intuição, de cantar, de fazer um verso, isso aí é dom da natureza. O cara que sabe fazer, pra mim isso é uma beleza”, conta rindo da própria rima, com que descontrai o assunto sério.

“Agora eu vou inventar, vou ver se eu faço uma poesia da natureza. Vai ficar bonito, tenho certeza. Já tô mais ou menos pesquisando”,fala apontando para a própria cabeça. “O dia que eu estiver sentado no banquinho ali ela vem, aponta agora para o banquinho em frente à sua casa, o lugar preferido para criar seus versos. “Vou falar dos montes, dos vales, das nascentes, das plantas, dos manguezal, né? E chega, hein? Não filma mais não, vou ficar quieto agora. Você sabe que o sábio é aquele que fica quieto? O que fala muito erra. Eu já devo estar errando”, diz Seu Amélio, rindo mais uma vez e se despedindo da nossa equipe.

Recuperando antigas gravações II

Um rico acervo de registro da ciranda está disponível em gravações em LP, a maioria delas realizada na década de 1970. Para fins de preservação e pesquisa, nossa equipe também digitalizou parte desse material.

Os LP’s foram digitalizados com uma vitrola comum ligada ao computador através de uma placa de som. O áudio foi então tratado, com redução de ruídos e estalos, e depois remasterizado.

O disco Folclore Fluminense traz a música de diversas festividades populares captadas nos anos 70 com um simples gravador portátil – daí a baixa qualidade da gravação, compensada pela atmosfera viva dos bailes.
Disponibilizamos abaixo a “Dança do Chiba”, executada pelo Grupo de Ciranda de Parati:

Já o compacto Cirandas de Paraty é especialmente precioso, registrando quatro canções típicas dos bailes caiçaras, interpretadas pelo Grupo de Tarituba, em 1975: o Chiba-Cateretê, dança vigorosa de sapateado com a qual eram abertas as festas; o Cabôco Véio e o Caranguejo, duas das “miudezas” dançantes; e a Tonta, dançada durante a alvorada como despedida dos bailes. A qualidade do fonograma é ainda inferior à do Folclore Fluminense, tanto pela captação quanto pelo formato de 7 polegadas, mas constitui um registro raro de manifestações musicais paratienses e da voz de Francisco José de Bulhões, o Mestre Chiquinho.
Abaixo, o “Cabôco Véio” – umas das únicas modas de Ciranda executadas em modo menor: