Como é uma casa caiçara?

Um dos espaços previstos para a exposição Os Nomes da Ciranda é uma reprodução do ambiente de uma típica casa da nossa zona rural.

Os esboços abaixo, feitos pelo arquiteto e museólogo  Julio Cezar Neto Dantas — diretor do Museu de Arte Sacra e do Museu Forte Defensor Perpétuo de Paraty, indicam alguns elementos que estarão presentes nesse espaço: a bandeira de folia, o oratório, a marquesa (um tipo de sofá sem encosto), o lampião, fotos de família.

Essas imagens são uma das referências utilizadas pela museóloga Isabela Marques Leite de Souza e por toda a equipe de pesquisadores do projeto para a composição da expografia de “Os Nomes da Ciranda”.

A exposição, parte do Projeto Paraty Ciranda, estará aberta ao público a partir de 28 de setembro, no Forte Defensor Perpétuo, em Paraty.

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Uma volta pelo passado e presente da ciranda com Seu Adail

Em julho deste ano, a equipe do projeto Paraty Ciranda se encontrou com Seu Adail, do grupo Os Caiçaras.

Multi-instrumentista, Seu Adail contou a história de sua vinda à cidade, o primeiro contato com o cavaquinho. “Não sou muito de cantar, toco viola, violão, cavaquinho, pandeiro. Sou útil ao grupo.”

Durante a conversa, realizada próxima à capela de Nossa Senhora das Dores, no Centro Histórico de Paraty, Seu Adail relembrou a vida na roça e na cidade nos tempos anteriores à Rio-Santos, os grandes nomes da Ciranda e os parentes e amigos que dividiram com ele a paixão pela música caiçara, como Seu Lourenço e seu pai Honório Bagre, Seu Anselmo, Seu Candinho, Benedito Virgulino,  Seu Bastião Justino dos Santos, Antonio Lidônio, Seu José Lopes, Vergino e o violeiro João Eva, do Rio Pequeno — “um grande mestre de ciranda e Reis.”

“Comecei a me envolver com ciranda na minha casa. Meu pai fazia baile de São João. Eu tocava pandeiro, meu vizinho tocava violão. Aprendi a tocar violão com ele, ali pelos 17 anos, para a Folia de Reis. Daí comecei a acompanhar.”

Chiba até o amanhecer

Adail falou um pouco sobre o chiba:

“Todos os bailes de roça eram chamados de chiba. À meia noite parava tudo e todo mundo ia pra mesa pra tomar café com biju. Às vezes uma polenta de milho. E depois continuava o baile de novo, até amanhecer o dia. Não cheguei a pegar o Chiba. O chiba foi extinto porque era uma dança mais de escravo. Era cansativa. Tinha que levar duas mudas de roupas. O dono da casa exigia, ‘se você não for dançar o chiba, não vai dançar as miudezas’ [ciranda, caranguejo, dança do chapéu, canoa, tontinha, verde-limão, choradinha…], porque as pessoas queriam fugir do chiba. Por isso o chiba aos poucos foi sumindo, e ficou só a ciranda, que o pessoal achava mais suave, mais tranquila.”

E sobre os bailes, ele lembra:

“Os bailes eram geralmente na sala. Nem sempre cabia, às vezes ficava na janela, olhando… Assim. Às vezes meu pai cortava cana pra fazer café de caldo de cana à noite. Dava café pra todo mundo. Minha mãe fazia ‘beiju’. Chaleirão de café, botava lá pras pessoas. Meia-noite e de manhã cedo. Toda casa era assim. Quase toda.”

Seu Adail acha que, depois da migração do povo para a cidade, a ciranda “deu uma baixa total”. Mas algumas pessoas, como o Marcolino, Joaquim (Pontal), Zezinho Chocalho começaram a valorizar mais. Com a Rio-Santos, em 1972, surgiram novos grupos. “A gente começou a se entrosar em Paraty depois de 1975-76. Aí veio um povo mais novo e a sociedade começou a se integrar mais com o pessoal ‘selvagem’.. Aí ficou ‘domesticado’ e ficou tudo certo [risos].”

Seu Anselmo, homem de festa

O cirandeiro  lembra com emoção do pai, Anselmo Ricardo Soares: “Meu pai era um homem de festa. Morreu com 88 anos, se você conhecesse ele… Minha casa era de todo mundo. Tinha uma mesona na cozinha, qualquer um que chegava em casa tava chegado. Era assim.” O pai vendeu o sítio da família no final da década de 1970, e Adail veio então para a cidade:

“A gente vendia banana, mas a banana caiu de preço. O pai resolveu vender, falou que podíamos passar fome, necessidade. Ele disse ‘A gente dá um jeito, você aprende a dirigir, vai trabalhar de motorista…’. Meu pai me ajudou a comprar meu primeiro carro, um Fusquinha. Não deu muito certo, e comprei um ponto na feirinha ali. Comecei a vender cachaça, cerveja… Passou um senhor mineiro, com um cavaquinho… Perguntei se ele queria vender. E ele vendeu. Comecei a tocar… Daí aprendi esse pouco que eu sei.”

Seu Leônidas, do grupo Os Caiçaras, viu o feirante tocar e o chamou para tocar com o grupo. “E tô aí até hoje brincando com eles.”

Seu Adail faz uma curiosa leitura sobre as mudanças nos hábitos e na paisagem da cidade desde sua infância. “Sinceramente, nas roças que vejo por aí eu não vejo mais nada…todo mundo moderno, todo mundo rico, não vejo ninguém pobre mais. Pobreza era antigamente, cheguei a comer angu de gordura. Muitas vezes comi isso. A nossa vida era essa.”

Sobre o legado da ciranda, Adail acha fundamental que a cultura caiçara seja apresentada às novas gerações. “Temos que passar pra garotada pra não deixar morrer, porque muita coisa já sumiu.”

Confira no vídeo abaixo alguns trechos do depoimento de Seu Adail:

A Ciranda na Festa do Divino

Uma das tradições mais conhecidas de Paraty, a Festa do Divino Espírito Santo está em vias de ser reconhecida pelo IPHAN como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. Notória pela mobilização popular e pela extensão de seu calendário festivo, que inicia tão logo é terminada a edição anterior, a Festa do Divino congrega celebrações e formas de expressão religiosas e profanas, dentre as quais a ciranda.

A ciranda se associa à Festa do Divino em pelo menos dois contextos: em apresentações na Praça da Matriz durante os dez dias de Festa, após as celebrações da novena; e por ocasião dos pousos da Folia do Divino, outrora um de seus elementos mais importantes, mas que hoje já não mais percorre a zona rural nos meses que antecedem a Festa.

O cirandeiro Seu Ditinho, violeiro do Grupo Sete Unidos e natural do Bom Jardim, já foi festeiro do Divino e lembra com saudade do tempo das Folias: “Quando a Folia passava, era a maior festa. Da Praia Vermelha até o Bom Jardim, levava uns 20 dias.”

Seu Ditinho cita como grandes mestres foliões Benedito Eliziário, Pedro Severino e Chidite, músicos que também se tornaram referências na ciranda.

Em cada pouso da Folia, a bandeira conduzida às casas dos devotos, servia-se comida e oferecia-se o pernoite. Após o jantar vinha o baile de ciranda, e a pombinha do mastro era coberta com o próprio pano da bandeira, em respeito ao Divino Espírito Santo (Diuner Mello, Festa do Divino Espírito Santo em Paraty: manual do festeiro, 2003).

Há ainda as danças para o Imperador coroado, na quadra ao lado da Igreja da Matriz: a dança dos velhos, a dança das fitas e o marrapaiá. Antigamente dançava-se ainda a Dança dos Coquinhos, a Dança das Jardineiras e o Caiapó. Tudo isso animado pela presença do Boi-de-pano, da Miota, do Cavalinho e do Peneirinha.

Fotos: Festa do Divino em Paraty, final da década de 1970. Acervo Julio Cezar Neto Dantas

Equipe apresenta o projeto no encontro Roda de Memórias

Na tarde da última quarta-feira, a equipe do projeto marcou presença no encontro Roda de Memórias, na sede do Escritório Técnico Costa Verde/Iphan em Paraty. O evento contou com representantes do poder público e de diversas entidades ligadas à Cultura na cidade.

No evento, André Bazzanela, técnico do Iphan, apresentou o projeto da Casa do Patrimônio em Paraty, um projeto pedagógico e de educação patrimonial com a proposta de estabelecer novas formas de relacionamento do Iphan com a sociedade.

A equipe do Projeto Paraty Ciranda apresentou sua pesquisa e o mapeamento das histórias de cirandeiros e seus bailes da roça e na cidade. Foram apresentados o banco de dados, nosso blog e  o primeiro vídeo do projeto, com o Seu Ditinho.

O encontro teve também a apresentação de entrevistas do documentário Memórias de Paraty, de Nena Gama e Izabel Costa Cermelli, que conta com depoimentos de antigos moradores da cidade.

Confira aqui a apresentação do projeto.

Com a bênção de Seu Ditinho das Canoas

Numa agradável manhã de julho deste ano, nossa equipe esteve na casa do violeiro Benedito Ricardo de Jesus, o Seu Ditinho das Canoas, na Ilha das Cobras, em Paraty.

A conversa com ele foi gravada em vídeo e seus melhores trechos serão exibidos na exposição Os Nomes da Ciranda, a partir de setembro, no Forte Defensor Perpétuo, em Paraty.

Seu Ditinho é membro do grupo Os Sete Unidos, fundado por ele em 1970 juntamente com o cunhado Benedito Bento (Dito do Pandeiro), que tem em seu repertório músicas folclóricas de Paraty. Além deles, o grupo é composto por Seu João Bento no 1º cavaquinho, Seu Joãozinho no 2º cavaquinho, Seu Cantarelle no violão, Seu Detinho no bandolim e Seu Ricardinho na timba.

Nessa conversa, seu Ditinho citou nomes históricos da ciranda de Paraty como Seu Verino, os irmãos Pedro, Antonio e João Jeremias, tocadores de caixa, Zezinho da Ramira, Chidite, Benedito Eliziário e o lendário Zezinho Chocalho, que morreu de enfarte enquanto dançava.

“O melhor tocador de viola aqui era o Chidite e o Eliziário. Depois deles, o Zezinho. Dizem que o Marcolino também era bom”, diz ele. Sobre o formato dos grupos no início dos 70, Ditinho diz que nessa época não havia grupos fixos de cirandeiros. “Nessa época não tinha grupo. Era um cata-cá. Na roça, a gente pegava o violão e tocava. Na época, todo mundo na roça sabia tocar um violão. Viola era difícil, mas cavaquinho e violão quase todo mundo faz.”

Os ritmos das festas variavam, segundo Ditinho. “Samba… E depois do samba tinha a ciranda: caranguejo, ciranda, marrafa, a dança do Arara, o Felipe… A folia era só na roça. Ilha Grande, Praia Vermelha, Campinho, nessas roça tudo.”

Ditinho aprendeu a tocar viola com seu pai, numa viola de 10 cordas. “Tenho um irmão que tocava viola muito bem, o Milton, mas não toca há muitos anos. Meu irmão Hugo era bom no cavaquinho. Cada violeiro tem uma batida diferente, uma cantoria diferente. Um não copia o outro.”

Seu Ditinho falou também das dificuldades crescentes de se tocar na Festa do Divino:  “o festeiro é que pagava a gente. Depois começaram a jogar para a prefeitura. E aí foi falhando o pagamento, falhando, falhando…Passa ano após ano e não chega a verba. Como é que faz? Se eu pendurar a chuteira, não tem outro grupo aí. Não conheço.”

Ele fala também da transformação da festa: “Não tem mais a bandeira na roça, só a novena na cidade. As festas viraram comércio. Tirando a parte religiosa, a Igreja, o resto é comércio. Antigamente, nada era vendido. Tudo era dado. ”

Sobre os hábitos da época, Seu Ditinho acredita que naquela época o comportamento das pessoas em geral era melhor do que o que se vê hoje: “Era aquele respeito total, uma coisa incrível. ‘Bênção, pai. Bênção, mãe’. Agora, acabou. ”

Confira um trecho do depoimento do Seu Ditinho, que durante todo o tempo da entrevista foi acompanhado por Dona Maria, sua companheira há cinco décadas.

O Chiba na história urbana de Paraty

por Pedro Franke*

Transcritas e publicadas no Roteiro Documental do Acervo Público de Paraty (1801-1883), as chamadas Posturas Municipais consistiam em leis que regulamentavam a administração local das vilas e cidades brasileiras após a independência.

Mais do que as diretrizes administrativas do poder estabelecido, as Posturas nos sugerem muito sobre os usos e costumes da população paratiense durante a primeira metade do século XIX.

A força dos bailes e danças populares no próprio centro da cidade é atestada nestes códigos através dos artigos que compõem o Capítulo 4° das Posturas, intitulado “Ajuntamentos e Passeios Noturnos” e sancionado no ano de 1836.

Em regras destinadas aos “caixeiros” e administradores de estabelecimentos tais como “armazéns, botequins ou outras casas públicas”, qualquer “ajuntamento de pessoas para tocarem e dançarem” ficava proibido no Centro Histórico, independente do horário. Os proprietários seriam multados em 2 mil réis por abrigar a festança.

As Posturas previam ainda multa de 6 mil réis para estabelecimentos que permitissem o agrupamento de mais de três escravos, se não fosse provado que estivessem ali fazendo compras por ordem expressa de seus senhores. A mesma multa recairia sobre os proprietários que permitissem escravos sentados ou parados “por mais tempo que o necessário para fazer compras”.

Entretanto, a multa mais pesada de todo o capítulo é determinada pelo Artigo 47, onde “fica prohibido dentro da cidade, depois da meia noite, o divertimento vulgarmente chamado ‘chiba‘ ou outro qualquer que possa incomodar a vizinhança”. A conivência com a prática noturna da tradicional dança caiçara custaria ao proprietário nada menos que 30 mil réis.

Tais determinações constituem fortes indícios da popularidade do chiba, festa tradicionalmente rural, no interior do perímetro urbano, e particularmente dentre os escravos da cidade. Além disso, testemunham uma perspectiva hostil e repressora em relação aos bailes por parte dos setores mais conservadores da sociedade.

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Fonte: Roteiro Documental do Acervo Público de Paraty (1801-1883) / Maria José S. Rameck e Diuner Mello (organizadores). Câmara Municipal de Paraty, Instituto Histórico e Artístico de Paraty – Guaratinguetá, SP: Gráfica e Editora Dias, 2003.

* Historiador, carioca criado em Paraty; técnico em assuntos culturais do Museu Forte Defensor Perpétuo de Paraty (IBRAM); mestre em História pelo Programa de Pós-graduação em História Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro; músico, compositor e produtor musical (Supercordas, Bonifrate).

Por que “ciranda”?

Ciranda é o principal nome que identifica hoje a música secular tradicional de Paraty. Com a intensificação da migração para a cidade, os antigos bailes da roça se tornaram cada vez mais raros, e hoje os grupos cirandeiros mais representativos se apresentam na sede do município e no distrito de Tarituba.

Ciranda era uma das danças executadas nos velhos bailes de chiba, uma das miudezas que garantiam a animação de damas e cavalheiros sobre pisos assoalhados até o amanhecer. É dança de roda, roda dupla de pares, homens por fora e mulheres por dentro.

Chiba é dança vigorosa, praticada quatro horas a fio por sapateadores em tamancos de laranjeira e dançarinas em belas saias rodadas. O chiba abria o baile, às 20 horas, e aquecia o assoalho de madeira para as danças das miudezas, que iniciavam após a meia-noite e iam madrugada adentro: a ciranda, a canoa, a marrafa, o caranguejo, a cana-verde, o arara e tantas outras. A tonta fechava a festa, o sol já raiando no início da manhã.

Eram muitas as danças do baile, a quem os antigos chamavam chiba. Hoje já não há o baile na roça, chiba só se dança em Tarituba, ficou o nome da ciranda. Mas é vasto o repertório desses mestres cirandeiros que ainda hoje animam paratienses e visitantes com suas apresentações e cuidam da memória de suas tradições.

Ciranda é o nome que hoje abriga as tantas e tão ricas memórias musicais da gente de Paraty, da roça e da cidade, da costeira e dos sertões; das festas religiosas, das festas de santos, com suas folias, fogueiras e ladainhas; dos bailes em casas assoalhadas, de sapateados, rodas e namoros; dos mutirões de pescadores e de agricultores, de caiçaras e de caipiras; de um período de grandes mudanças, da migração à cidade, do afastamento das roças, da chegada do turismo. Na roda da ciranda dançam as memórias e as histórias de Paraty e de seu povo, de hoje e de ontem.