No ritmo dos versos de Seu Amélio

seu amélio cirandeiro

A música sempre ocupou um lugar importante na vida do cirandeiro Amélio da Silva Vaz. Aos cinco anos de idade já cantava canoa e folia de reis com os irmãos, e acompanhava o pai nas festas de jongo.

“Onde eu não podia andar ele me carregava. Vinha de noite caminho a fora tocando pandeiro e tocando. Aquela cantoria e eu só prestando atenção.”

Aos seis aprendeu a tocar pandeiro, e aos dez já era tripe de folia de Reis. “Tripe faz uma terceira voz, aguda. Uma voz alterada, fina, no final, no descante”, explica o seu Amélio.

Não tardou a que se tornasse mestre de folia, precocemente, aos 17 anos: “Nós tinha um grupo muito bom, com viola, bandolim, cavaquinho, violão, pandeiro, triângulo, reco-reco.” Isso na Graúna, onde foi criado, depois que seu pai se mudou da Praia Grande, local onde Amélio nasceu.

Versos de memória e de improviso

Sua história ele conta em versos, em um poema de 28 estrofes que guarda na memória. Segue uma tradição que aprendeu ainda criança lendo clássicos da literatura de cordel, alguns dos quais ainda conhece de cor, como a História de Zezinho e Mariquinha, que recita do princípio ao fim.

Aos 79 anos, além da memória incrível para cordéis, canções e histórias, Seu Amélio é um dos poucos cirandeiros de Paraty a preservar a tradição dos versos rimados de improviso. Rima na própria conversa, e nos conta que no tempo do chiba as modas eram cantadas de improviso, como comentários sobre fatos do dia e gozação com pessoas presentes no baile:

“Qualquer coisa que viam, se viam uma moça namorando escondido já faziam uma moda, enfim, qualquer coisa que viam eles faziam uma moda pra cantar no chiba. O chiba era um meio de descobrir segredos, com melodia.”

Dom e tradição

Além da música e da poesia, Seu Amélio é conhecido na cidade pelo pé-de-moleque de gengibre que faz quase todos os dias. Ao longo da vida, como muitos mestres cirandeiros, foi lavrador e pescador. Chegou a tocar viola, mas com o trabalho árduo em Santos acabou deixando o instrumento de lado. Ficou com o pandeiro e a voz. E a memória, de que faz instrumento para a preservação de sua cultura:

“Isso aí vale ouro, né? Porque é difícil pessoas que tenham conhecimento das coisas passadas. Não tem, é muito raro você achar. Você chega pra uma pessoa da minha idade, e diz: ‘você se lembra de alguma coisa?’, ‘ah, não me lembro’. Isso aí são memórias que a pessoa vive praquilo, né? Vive praquilo ali e guarda.”

Amélio vê com resignação o desaparecimento de velhas tradições, consciente de que os processos de mudança e transformação estão sempre em curso. Afirma que muitas danças que já não se vê na ciranda deixaram de existir ainda nas décadas de 1930 e 1940, como os “dois amantes”, o “gavião” e o “passarinho”. Mas faz o que pode para preservar o que aprendeu. Sua viola, por exemplo, presenteou ao filho de um amigo que demonstrou interesse no instrumento, e hoje já faz apresentações públicas no Brasil e no exterior.

“Tudo isso tem história que pouca gente sabe. E vai desaparecendo, porque pouca gente se interessa em aprender. A única coisa que a pessoa traz de si, da natureza, é a intuição, de cantar, de fazer um verso, isso aí é dom da natureza. O cara que sabe fazer, pra mim isso é uma beleza”, conta rindo da própria rima, com que descontrai o assunto sério.

“Agora eu vou inventar, vou ver se eu faço uma poesia da natureza. Vai ficar bonito, tenho certeza. Já tô mais ou menos pesquisando”,fala apontando para a própria cabeça. “O dia que eu estiver sentado no banquinho ali ela vem, aponta agora para o banquinho em frente à sua casa, o lugar preferido para criar seus versos. “Vou falar dos montes, dos vales, das nascentes, das plantas, dos manguezal, né? E chega, hein? Não filma mais não, vou ficar quieto agora. Você sabe que o sábio é aquele que fica quieto? O que fala muito erra. Eu já devo estar errando”, diz Seu Amélio, rindo mais uma vez e se despedindo da nossa equipe.

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