Um registro fotográfico da abertura da exposição

A abertura da exposição Os Nomes da Ciranda, no dia 28 de setembro, coincidiu com a realização na cidade do Paraty em Foco, um dos maiores festivais internacionais de fotografia no Brasil. Alguns fotógrafos participantes do evento prestigiaram nossa programação e contribuíram com o registro das atividades com belas fotos. Agradecemos à fotógrafa Joana França, dedicada à fotografia de arquitetura e cidades, pelo envio dessas imagens.

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Seu Verino e Seu Dito, coroas cirandeiros

Moradores e visitantes de Paraty certamente já viram Seu Verino e Seu Dito da Laranja tocando cirandas no Centro Histórico, em frente ao antigo Paço Municipal. É ali que os integrantes do grupo Os Coroas Cirandeiros se apresentam nas noites dos finais de semana. Naturais do Rio dos Meros, os dois cirandeiros têm uma longa história de bailes e concertos, na roça e na cidade.

Em um agradável bate-papo em junho de 2012, na casa de Seu Verino, no bairro de Fátima, a dupla contou à nossa equipe histórias da infância na roça, dos primeiros instrumentos e bailes e da vinda para a cidade. Seu Verino abriu o arquivo pessoal de fotos, e junto com o velho amigo relembraram grandes mestres e parceiros do passado e falaram sobre os rumos da ciranda hoje.

Tradição de pai para filho

A parceria entre Verino de Barros e Benedito Alves de Souza é antiga. Seus pais, Manuel Pedro de Barros e Antonio Alves de Souza já faziam duetos de viola nos bailes do Rio dos Meros, em um tempo em que a dupla de violas era a base musical da ciranda. Antigamente não havia tanta variedade de instrumentos, como conta Seu Dito:

“Naquele tempo era duas violas, no chiba sempre tocava mais duas violas, e depois o cavaquinho. E o adufo, como chamava naquela época.”

Filhos de violeiros, Verino e Dito não herdaram a tradição das dez cordas. Na roça aprenderam a tocar os instrumentos de percussão da ciranda: Dito no adufo e no pandeiro, Verino na timba e na caixa. Mas Seu Verino, depois de migrar para a cidade, acabou se rendendo à vocação familiar para as cordas e especializou-se no bandolim.

Os bailes no Rio dos Meros

Verino e Dito guardam vivas as lembranças de bailes antológicos nas casas dos Marianos, de Benedito Maneco, de Benedito Teófilo e do próprio Manuel Pedro. Eram bailes que varavam a madrugada e terminavam com o sol a pino no dia seguinte. Boas também são as recordações das domingueiras, que Seu Verino explica:

Domingueira é dançar de dia como se fosse à noite. Então as damas iam embora, almoçavam e dormiam, e de tarde voltavam novamente. Ia até umas sete horas da noite. Era aquela alegria, aquela animação.”

Para chegar aos bailes, que sempre iniciavam com o chiba, o caminho era feito a pé, por chão batido e trilhas no mato. A satisfação do baile valia todo o esforço, inclusive o de tocar a noite inteira só pelo café.

Memória da Ciranda

Hoje, enquanto mantêm viva a memória musical da ciranda tocando as velhas modas na cidade, Verino e Dito rendem tributo a grandes mestres cirandeiros já falecidos, de quem falam com saudade. São nomes como o de Seu Binto (Benedito Alves), de Paraty Mirim, “o nosso violão”, nos termos em que gostam de lembrar; ou o pandeirista José Mariano, conhecido como Zezinho Chocalho, “um dos primeiros que tocou comigo na zona rural”, conta Verino.

O bandolinista, filho de Seu Manuel Pedro, sonha com o reconhecimento de seu trabalho pelas próximas gerações:

“Acaba as coisas… as coisas deviam ser bem divulgadas… como o nosso trabalho. Que amanhã eu não tô mais aqui, mas eu queria ficar numa história, pelos meus amigos e pela minha família. ‘Isso aqui foi meu pai que fez’… ‘tá aqui a foto dele, vocês querem ver ele?’… meus netos não vão me conhecer, eles vão conhecer através de outras pessoas: ‘vai na Secretaria de Cultura que você vai ver a foto dele e a música dele’. Isso é meu sonho.”

Mas, como a ciranda não é coisa do passado, seguem criando novas canções. E após tocarem a marrafa, a dupla de coroas cirandeiros se despede e brinda nossa equipe com a execução de duas músicas de autoria de Seu Verino, a “Pombinha branca” e “Dançar ciranda só dentro de Paraty”. Veja mais no vídeo:

No ritmo dos versos de Seu Amélio

seu amélio cirandeiro

A música sempre ocupou um lugar importante na vida do cirandeiro Amélio da Silva Vaz. Aos cinco anos de idade já cantava canoa e folia de reis com os irmãos, e acompanhava o pai nas festas de jongo.

“Onde eu não podia andar ele me carregava. Vinha de noite caminho a fora tocando pandeiro e tocando. Aquela cantoria e eu só prestando atenção.”

Aos seis aprendeu a tocar pandeiro, e aos dez já era tripe de folia de Reis. “Tripe faz uma terceira voz, aguda. Uma voz alterada, fina, no final, no descante”, explica o seu Amélio.

Não tardou a que se tornasse mestre de folia, precocemente, aos 17 anos: “Nós tinha um grupo muito bom, com viola, bandolim, cavaquinho, violão, pandeiro, triângulo, reco-reco.” Isso na Graúna, onde foi criado, depois que seu pai se mudou da Praia Grande, local onde Amélio nasceu.

Versos de memória e de improviso

Sua história ele conta em versos, em um poema de 28 estrofes que guarda na memória. Segue uma tradição que aprendeu ainda criança lendo clássicos da literatura de cordel, alguns dos quais ainda conhece de cor, como a História de Zezinho e Mariquinha, que recita do princípio ao fim.

Aos 79 anos, além da memória incrível para cordéis, canções e histórias, Seu Amélio é um dos poucos cirandeiros de Paraty a preservar a tradição dos versos rimados de improviso. Rima na própria conversa, e nos conta que no tempo do chiba as modas eram cantadas de improviso, como comentários sobre fatos do dia e gozação com pessoas presentes no baile:

“Qualquer coisa que viam, se viam uma moça namorando escondido já faziam uma moda, enfim, qualquer coisa que viam eles faziam uma moda pra cantar no chiba. O chiba era um meio de descobrir segredos, com melodia.”

Dom e tradição

Além da música e da poesia, Seu Amélio é conhecido na cidade pelo pé-de-moleque de gengibre que faz quase todos os dias. Ao longo da vida, como muitos mestres cirandeiros, foi lavrador e pescador. Chegou a tocar viola, mas com o trabalho árduo em Santos acabou deixando o instrumento de lado. Ficou com o pandeiro e a voz. E a memória, de que faz instrumento para a preservação de sua cultura:

“Isso aí vale ouro, né? Porque é difícil pessoas que tenham conhecimento das coisas passadas. Não tem, é muito raro você achar. Você chega pra uma pessoa da minha idade, e diz: ‘você se lembra de alguma coisa?’, ‘ah, não me lembro’. Isso aí são memórias que a pessoa vive praquilo, né? Vive praquilo ali e guarda.”

Amélio vê com resignação o desaparecimento de velhas tradições, consciente de que os processos de mudança e transformação estão sempre em curso. Afirma que muitas danças que já não se vê na ciranda deixaram de existir ainda nas décadas de 1930 e 1940, como os “dois amantes”, o “gavião” e o “passarinho”. Mas faz o que pode para preservar o que aprendeu. Sua viola, por exemplo, presenteou ao filho de um amigo que demonstrou interesse no instrumento, e hoje já faz apresentações públicas no Brasil e no exterior.

“Tudo isso tem história que pouca gente sabe. E vai desaparecendo, porque pouca gente se interessa em aprender. A única coisa que a pessoa traz de si, da natureza, é a intuição, de cantar, de fazer um verso, isso aí é dom da natureza. O cara que sabe fazer, pra mim isso é uma beleza”, conta rindo da própria rima, com que descontrai o assunto sério.

“Agora eu vou inventar, vou ver se eu faço uma poesia da natureza. Vai ficar bonito, tenho certeza. Já tô mais ou menos pesquisando”,fala apontando para a própria cabeça. “O dia que eu estiver sentado no banquinho ali ela vem, aponta agora para o banquinho em frente à sua casa, o lugar preferido para criar seus versos. “Vou falar dos montes, dos vales, das nascentes, das plantas, dos manguezal, né? E chega, hein? Não filma mais não, vou ficar quieto agora. Você sabe que o sábio é aquele que fica quieto? O que fala muito erra. Eu já devo estar errando”, diz Seu Amélio, rindo mais uma vez e se despedindo da nossa equipe.

A ciranda e as folias

Festa do Divino em Paraty, junho de 2012

Foi tocando nas folias que muitos cirandeiros se tornaram íntimos de seus instrumentos. Outrora atuantes na zona rural e na sede do município o ano inteiro, hoje já não se encontram folias de Reis em Paraty. Na Festa do Divino (acima), a folia ficou restrita à cidade.

As folias eram incumbidas de percorrer as casas em busca de donativos para as festas religiosas. Levavam música e símbolos sacros, como as bandeiras. À noite os pousos quase sempre acabavam em bailes. “Folia de Reis sempre acabava no baile. O último que me lembro, na casa do Seu Gervásio, começaram a dançar 1h e só acabou meio-dia. Sol quente e a turma dançando.”, relembra o violeiro Zé Malvão.

Seu Amélio, referência na ciranda de Paraty e um dos mestres de folia ainda vivo, conta que havia grupos de folia em todas as localidades do município, às vezes mais de uma. O cirandeiro, líder do Grupo Cana Verde, começou a tocar na Folia de Reis, que aprendeu com o pai, e formou um grupo em casa com outros dois irmãos.

“Com dez anos eu fui ser tripe de folia. Acompanhava as folias pela roça cantando tripe e tocando pandeiro. Comecei a tocar pandeiro com seis anos. (…) Com 17 anos eu era mestre da folia de reis. Nós tinha um grupo muito bom, com viola, bandolim, cavaquinho, violão, pandeiro, triângulo, reco-reco. Isso lá na Graúna.” — relata Seu Amélio.

Seu Adail, do grupo Os Caiçaras, veio para a cidade em 1980 e se entregou à folia: “Lá conheci o Seu Benedito Cravo, benzedor. Mestre de reis, fizemos sucesso em Tarituba. Um excelente mestre. Maravilhoso. Tocamos reis na Barra Grande e Tarituba.”

Hoje são os grupos de ciranda, como os Coroas Cirandeiros e Os Sete Unidos, que mantêm viva a tradição musical da Folia de Reis, embora já não haja saídas de bandeiras. Prestam tributo aos mestres e contramestres foliões, como Antônio Tomás, Moisés, Alisário, Mané Quebra-Pau, Virgulino, Zé Veiga, João Eva, Bonifácio, Oliveira, Eliseu, Cento e Vinte, Mané Gato, Joãozinho da Guilhermina, Bastião Justino, Benedito Eliziário, Pedro Severino, Chidite, Chibidi, Lotério, José Daniel, José Lopes, José Maia, Manoel Rita. E aos mestres ainda vivos, como Seu Amélio e Seu Lourenço, da Barra Grande, a quem também registramos.

A Ciranda na Festa do Divino

Uma das tradições mais conhecidas de Paraty, a Festa do Divino Espírito Santo está em vias de ser reconhecida pelo IPHAN como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. Notória pela mobilização popular e pela extensão de seu calendário festivo, que inicia tão logo é terminada a edição anterior, a Festa do Divino congrega celebrações e formas de expressão religiosas e profanas, dentre as quais a ciranda.

A ciranda se associa à Festa do Divino em pelo menos dois contextos: em apresentações na Praça da Matriz durante os dez dias de Festa, após as celebrações da novena; e por ocasião dos pousos da Folia do Divino, outrora um de seus elementos mais importantes, mas que hoje já não mais percorre a zona rural nos meses que antecedem a Festa.

O cirandeiro Seu Ditinho, violeiro do Grupo Sete Unidos e natural do Bom Jardim, já foi festeiro do Divino e lembra com saudade do tempo das Folias: “Quando a Folia passava, era a maior festa. Da Praia Vermelha até o Bom Jardim, levava uns 20 dias.”

Seu Ditinho cita como grandes mestres foliões Benedito Eliziário, Pedro Severino e Chidite, músicos que também se tornaram referências na ciranda.

Em cada pouso da Folia, a bandeira conduzida às casas dos devotos, servia-se comida e oferecia-se o pernoite. Após o jantar vinha o baile de ciranda, e a pombinha do mastro era coberta com o próprio pano da bandeira, em respeito ao Divino Espírito Santo (Diuner Mello, Festa do Divino Espírito Santo em Paraty: manual do festeiro, 2003).

Há ainda as danças para o Imperador coroado, na quadra ao lado da Igreja da Matriz: a dança dos velhos, a dança das fitas e o marrapaiá. Antigamente dançava-se ainda a Dança dos Coquinhos, a Dança das Jardineiras e o Caiapó. Tudo isso animado pela presença do Boi-de-pano, da Miota, do Cavalinho e do Peneirinha.

Fotos: Festa do Divino em Paraty, final da década de 1970. Acervo Julio Cezar Neto Dantas