A ciranda e as folias

Festa do Divino em Paraty, junho de 2012

Foi tocando nas folias que muitos cirandeiros se tornaram íntimos de seus instrumentos. Outrora atuantes na zona rural e na sede do município o ano inteiro, hoje já não se encontram folias de Reis em Paraty. Na Festa do Divino (acima), a folia ficou restrita à cidade.

As folias eram incumbidas de percorrer as casas em busca de donativos para as festas religiosas. Levavam música e símbolos sacros, como as bandeiras. À noite os pousos quase sempre acabavam em bailes. “Folia de Reis sempre acabava no baile. O último que me lembro, na casa do Seu Gervásio, começaram a dançar 1h e só acabou meio-dia. Sol quente e a turma dançando.”, relembra o violeiro Zé Malvão.

Seu Amélio, referência na ciranda de Paraty e um dos mestres de folia ainda vivo, conta que havia grupos de folia em todas as localidades do município, às vezes mais de uma. O cirandeiro, líder do Grupo Cana Verde, começou a tocar na Folia de Reis, que aprendeu com o pai, e formou um grupo em casa com outros dois irmãos.

“Com dez anos eu fui ser tripe de folia. Acompanhava as folias pela roça cantando tripe e tocando pandeiro. Comecei a tocar pandeiro com seis anos. (…) Com 17 anos eu era mestre da folia de reis. Nós tinha um grupo muito bom, com viola, bandolim, cavaquinho, violão, pandeiro, triângulo, reco-reco. Isso lá na Graúna.” — relata Seu Amélio.

Seu Adail, do grupo Os Caiçaras, veio para a cidade em 1980 e se entregou à folia: “Lá conheci o Seu Benedito Cravo, benzedor. Mestre de reis, fizemos sucesso em Tarituba. Um excelente mestre. Maravilhoso. Tocamos reis na Barra Grande e Tarituba.”

Hoje são os grupos de ciranda, como os Coroas Cirandeiros e Os Sete Unidos, que mantêm viva a tradição musical da Folia de Reis, embora já não haja saídas de bandeiras. Prestam tributo aos mestres e contramestres foliões, como Antônio Tomás, Moisés, Alisário, Mané Quebra-Pau, Virgulino, Zé Veiga, João Eva, Bonifácio, Oliveira, Eliseu, Cento e Vinte, Mané Gato, Joãozinho da Guilhermina, Bastião Justino, Benedito Eliziário, Pedro Severino, Chidite, Chibidi, Lotério, José Daniel, José Lopes, José Maia, Manoel Rita. E aos mestres ainda vivos, como Seu Amélio e Seu Lourenço, da Barra Grande, a quem também registramos.

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A Ciranda na Festa do Divino

Uma das tradições mais conhecidas de Paraty, a Festa do Divino Espírito Santo está em vias de ser reconhecida pelo IPHAN como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. Notória pela mobilização popular e pela extensão de seu calendário festivo, que inicia tão logo é terminada a edição anterior, a Festa do Divino congrega celebrações e formas de expressão religiosas e profanas, dentre as quais a ciranda.

A ciranda se associa à Festa do Divino em pelo menos dois contextos: em apresentações na Praça da Matriz durante os dez dias de Festa, após as celebrações da novena; e por ocasião dos pousos da Folia do Divino, outrora um de seus elementos mais importantes, mas que hoje já não mais percorre a zona rural nos meses que antecedem a Festa.

O cirandeiro Seu Ditinho, violeiro do Grupo Sete Unidos e natural do Bom Jardim, já foi festeiro do Divino e lembra com saudade do tempo das Folias: “Quando a Folia passava, era a maior festa. Da Praia Vermelha até o Bom Jardim, levava uns 20 dias.”

Seu Ditinho cita como grandes mestres foliões Benedito Eliziário, Pedro Severino e Chidite, músicos que também se tornaram referências na ciranda.

Em cada pouso da Folia, a bandeira conduzida às casas dos devotos, servia-se comida e oferecia-se o pernoite. Após o jantar vinha o baile de ciranda, e a pombinha do mastro era coberta com o próprio pano da bandeira, em respeito ao Divino Espírito Santo (Diuner Mello, Festa do Divino Espírito Santo em Paraty: manual do festeiro, 2003).

Há ainda as danças para o Imperador coroado, na quadra ao lado da Igreja da Matriz: a dança dos velhos, a dança das fitas e o marrapaiá. Antigamente dançava-se ainda a Dança dos Coquinhos, a Dança das Jardineiras e o Caiapó. Tudo isso animado pela presença do Boi-de-pano, da Miota, do Cavalinho e do Peneirinha.

Fotos: Festa do Divino em Paraty, final da década de 1970. Acervo Julio Cezar Neto Dantas

O Chiba na história urbana de Paraty

por Pedro Franke*

Transcritas e publicadas no Roteiro Documental do Acervo Público de Paraty (1801-1883), as chamadas Posturas Municipais consistiam em leis que regulamentavam a administração local das vilas e cidades brasileiras após a independência.

Mais do que as diretrizes administrativas do poder estabelecido, as Posturas nos sugerem muito sobre os usos e costumes da população paratiense durante a primeira metade do século XIX.

A força dos bailes e danças populares no próprio centro da cidade é atestada nestes códigos através dos artigos que compõem o Capítulo 4° das Posturas, intitulado “Ajuntamentos e Passeios Noturnos” e sancionado no ano de 1836.

Em regras destinadas aos “caixeiros” e administradores de estabelecimentos tais como “armazéns, botequins ou outras casas públicas”, qualquer “ajuntamento de pessoas para tocarem e dançarem” ficava proibido no Centro Histórico, independente do horário. Os proprietários seriam multados em 2 mil réis por abrigar a festança.

As Posturas previam ainda multa de 6 mil réis para estabelecimentos que permitissem o agrupamento de mais de três escravos, se não fosse provado que estivessem ali fazendo compras por ordem expressa de seus senhores. A mesma multa recairia sobre os proprietários que permitissem escravos sentados ou parados “por mais tempo que o necessário para fazer compras”.

Entretanto, a multa mais pesada de todo o capítulo é determinada pelo Artigo 47, onde “fica prohibido dentro da cidade, depois da meia noite, o divertimento vulgarmente chamado ‘chiba‘ ou outro qualquer que possa incomodar a vizinhança”. A conivência com a prática noturna da tradicional dança caiçara custaria ao proprietário nada menos que 30 mil réis.

Tais determinações constituem fortes indícios da popularidade do chiba, festa tradicionalmente rural, no interior do perímetro urbano, e particularmente dentre os escravos da cidade. Além disso, testemunham uma perspectiva hostil e repressora em relação aos bailes por parte dos setores mais conservadores da sociedade.

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Fonte: Roteiro Documental do Acervo Público de Paraty (1801-1883) / Maria José S. Rameck e Diuner Mello (organizadores). Câmara Municipal de Paraty, Instituto Histórico e Artístico de Paraty – Guaratinguetá, SP: Gráfica e Editora Dias, 2003.

* Historiador, carioca criado em Paraty; técnico em assuntos culturais do Museu Forte Defensor Perpétuo de Paraty (IBRAM); mestre em História pelo Programa de Pós-graduação em História Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro; músico, compositor e produtor musical (Supercordas, Bonifrate).

Por que “ciranda”?

Ciranda é o principal nome que identifica hoje a música secular tradicional de Paraty. Com a intensificação da migração para a cidade, os antigos bailes da roça se tornaram cada vez mais raros, e hoje os grupos cirandeiros mais representativos se apresentam na sede do município e no distrito de Tarituba.

Ciranda era uma das danças executadas nos velhos bailes de chiba, uma das miudezas que garantiam a animação de damas e cavalheiros sobre pisos assoalhados até o amanhecer. É dança de roda, roda dupla de pares, homens por fora e mulheres por dentro.

Chiba é dança vigorosa, praticada quatro horas a fio por sapateadores em tamancos de laranjeira e dançarinas em belas saias rodadas. O chiba abria o baile, às 20 horas, e aquecia o assoalho de madeira para as danças das miudezas, que iniciavam após a meia-noite e iam madrugada adentro: a ciranda, a canoa, a marrafa, o caranguejo, a cana-verde, o arara e tantas outras. A tonta fechava a festa, o sol já raiando no início da manhã.

Eram muitas as danças do baile, a quem os antigos chamavam chiba. Hoje já não há o baile na roça, chiba só se dança em Tarituba, ficou o nome da ciranda. Mas é vasto o repertório desses mestres cirandeiros que ainda hoje animam paratienses e visitantes com suas apresentações e cuidam da memória de suas tradições.

Ciranda é o nome que hoje abriga as tantas e tão ricas memórias musicais da gente de Paraty, da roça e da cidade, da costeira e dos sertões; das festas religiosas, das festas de santos, com suas folias, fogueiras e ladainhas; dos bailes em casas assoalhadas, de sapateados, rodas e namoros; dos mutirões de pescadores e de agricultores, de caiçaras e de caipiras; de um período de grandes mudanças, da migração à cidade, do afastamento das roças, da chegada do turismo. Na roda da ciranda dançam as memórias e as histórias de Paraty e de seu povo, de hoje e de ontem.

Paraty Ciranda: um projeto sobre a música e a resistência cultural caiçara

Olá.

Inauguramos este espaço para registrar e dividir com você, a partir de agora, nossa pesquisa sobre os cirandeiros de Paraty.

Paraty Ciranda é um projeto de pesquisa proposto pelo Instituto de Estudos Sócio Culturais e Ambientais Colibri em parceria com o Museu Forte Defensor Perpétuo de Paraty/Ibram, aprovado pela Secretaria Estadual de Cultura do Rio de Janeiro em dezembro de 2011, sobre a ciranda e outras formas de manifestação musical caiçara em Paraty.

A pesquisa terá como produtos uma exposição a ser realizada no Museu Forte Defensor Perpétuo, unidade museológica do IBRAM em Paraty; um evento de inauguração da exposição e divulgação da pesquisa; e este blog, para divulgação da pesquisa e de seus produtos, com textos, fotos e vídeos produzidos pela equipe e por parceiros.

Vamos mapear as comunidades que ainda praticam a ciranda no município de Paraty, assim como aquelas em que ainda residem cirandeiros não mais atuantes. Com isso, queremos contribuir para o resgate da história e a memória da ciranda de Paraty e de seus protagonistas.

Serão realizadas entrevistas qualitativas, em campo, com cirandeiros e outras pessoas relacionadas à cultura da ciranda e à cultura caiçara em Paraty. A pesquisa ainda compreenderá uma etapa de levantamento bibliográfico do material já produzido sobre a musicalidade e a cultura caiçaras.

Os resultados da pesquisa serão organizados na forma de vídeos curtos (entrevistas e gravações de apresentações de cirandeiros, disponibilizados no blog e no espaço expositivo do Museu, que conta com uma sala de vídeo), fotografias e textos, que serão apresentados em diversos suportes (em molduras, banners, painéis e também disponibilizados no blog).

A exposição será composta de fotografias (novas e antigas), banners e painéis informativos, com textos, fotografias, imagens e letras de músicas de cirandas tradicionais de Paraty, além de peças do acervo do Museu.

Queremos que a pesquisa desenvolvida produza subsídios para a construção de um trabalho educativo continuado de parceria entre o Museu e as escolas do município, não restrito ao evento, em torno de ações relacionadas à cultura caiçara, fortemente definidora da identidade cultural local.

Nossa equipe:

Antônia Regina de Moura, jornalista (Instituto Colibri) e pesquisadora
Isabela Marques Leite de Sousa, museóloga (Ibram), pesquisadora
Henrique Milen Vizeu Carvalho, jornalista (Ibram), pesquisador
Matheus Augusto, fotógrafo e cinegrafista
Pablo Piedade, músico (Ciranda Elétrica), pesquisador
Pedro Campos Franke, historiador (Ibram), pesquisador
Pedro de Lemos MacDowell, antropólogo (Ibram), pesquisador-coordenador

Vamos juntos remar nessa ciranda. Um grande abraço a todos.