Seu Verino e Seu Dito, coroas cirandeiros

Moradores e visitantes de Paraty certamente já viram Seu Verino e Seu Dito da Laranja tocando cirandas no Centro Histórico, em frente ao antigo Paço Municipal. É ali que os integrantes do grupo Os Coroas Cirandeiros se apresentam nas noites dos finais de semana. Naturais do Rio dos Meros, os dois cirandeiros têm uma longa história de bailes e concertos, na roça e na cidade.

Em um agradável bate-papo em junho de 2012, na casa de Seu Verino, no bairro de Fátima, a dupla contou à nossa equipe histórias da infância na roça, dos primeiros instrumentos e bailes e da vinda para a cidade. Seu Verino abriu o arquivo pessoal de fotos, e junto com o velho amigo relembraram grandes mestres e parceiros do passado e falaram sobre os rumos da ciranda hoje.

Tradição de pai para filho

A parceria entre Verino de Barros e Benedito Alves de Souza é antiga. Seus pais, Manuel Pedro de Barros e Antonio Alves de Souza já faziam duetos de viola nos bailes do Rio dos Meros, em um tempo em que a dupla de violas era a base musical da ciranda. Antigamente não havia tanta variedade de instrumentos, como conta Seu Dito:

“Naquele tempo era duas violas, no chiba sempre tocava mais duas violas, e depois o cavaquinho. E o adufo, como chamava naquela época.”

Filhos de violeiros, Verino e Dito não herdaram a tradição das dez cordas. Na roça aprenderam a tocar os instrumentos de percussão da ciranda: Dito no adufo e no pandeiro, Verino na timba e na caixa. Mas Seu Verino, depois de migrar para a cidade, acabou se rendendo à vocação familiar para as cordas e especializou-se no bandolim.

Os bailes no Rio dos Meros

Verino e Dito guardam vivas as lembranças de bailes antológicos nas casas dos Marianos, de Benedito Maneco, de Benedito Teófilo e do próprio Manuel Pedro. Eram bailes que varavam a madrugada e terminavam com o sol a pino no dia seguinte. Boas também são as recordações das domingueiras, que Seu Verino explica:

Domingueira é dançar de dia como se fosse à noite. Então as damas iam embora, almoçavam e dormiam, e de tarde voltavam novamente. Ia até umas sete horas da noite. Era aquela alegria, aquela animação.”

Para chegar aos bailes, que sempre iniciavam com o chiba, o caminho era feito a pé, por chão batido e trilhas no mato. A satisfação do baile valia todo o esforço, inclusive o de tocar a noite inteira só pelo café.

Memória da Ciranda

Hoje, enquanto mantêm viva a memória musical da ciranda tocando as velhas modas na cidade, Verino e Dito rendem tributo a grandes mestres cirandeiros já falecidos, de quem falam com saudade. São nomes como o de Seu Binto (Benedito Alves), de Paraty Mirim, “o nosso violão”, nos termos em que gostam de lembrar; ou o pandeirista José Mariano, conhecido como Zezinho Chocalho, “um dos primeiros que tocou comigo na zona rural”, conta Verino.

O bandolinista, filho de Seu Manuel Pedro, sonha com o reconhecimento de seu trabalho pelas próximas gerações:

“Acaba as coisas… as coisas deviam ser bem divulgadas… como o nosso trabalho. Que amanhã eu não tô mais aqui, mas eu queria ficar numa história, pelos meus amigos e pela minha família. ‘Isso aqui foi meu pai que fez’… ‘tá aqui a foto dele, vocês querem ver ele?’… meus netos não vão me conhecer, eles vão conhecer através de outras pessoas: ‘vai na Secretaria de Cultura que você vai ver a foto dele e a música dele’. Isso é meu sonho.”

Mas, como a ciranda não é coisa do passado, seguem criando novas canções. E após tocarem a marrafa, a dupla de coroas cirandeiros se despede e brinda nossa equipe com a execução de duas músicas de autoria de Seu Verino, a “Pombinha branca” e “Dançar ciranda só dentro de Paraty”. Veja mais no vídeo:

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No ritmo dos versos de Seu Amélio

seu amélio cirandeiro

A música sempre ocupou um lugar importante na vida do cirandeiro Amélio da Silva Vaz. Aos cinco anos de idade já cantava canoa e folia de reis com os irmãos, e acompanhava o pai nas festas de jongo.

“Onde eu não podia andar ele me carregava. Vinha de noite caminho a fora tocando pandeiro e tocando. Aquela cantoria e eu só prestando atenção.”

Aos seis aprendeu a tocar pandeiro, e aos dez já era tripe de folia de Reis. “Tripe faz uma terceira voz, aguda. Uma voz alterada, fina, no final, no descante”, explica o seu Amélio.

Não tardou a que se tornasse mestre de folia, precocemente, aos 17 anos: “Nós tinha um grupo muito bom, com viola, bandolim, cavaquinho, violão, pandeiro, triângulo, reco-reco.” Isso na Graúna, onde foi criado, depois que seu pai se mudou da Praia Grande, local onde Amélio nasceu.

Versos de memória e de improviso

Sua história ele conta em versos, em um poema de 28 estrofes que guarda na memória. Segue uma tradição que aprendeu ainda criança lendo clássicos da literatura de cordel, alguns dos quais ainda conhece de cor, como a História de Zezinho e Mariquinha, que recita do princípio ao fim.

Aos 79 anos, além da memória incrível para cordéis, canções e histórias, Seu Amélio é um dos poucos cirandeiros de Paraty a preservar a tradição dos versos rimados de improviso. Rima na própria conversa, e nos conta que no tempo do chiba as modas eram cantadas de improviso, como comentários sobre fatos do dia e gozação com pessoas presentes no baile:

“Qualquer coisa que viam, se viam uma moça namorando escondido já faziam uma moda, enfim, qualquer coisa que viam eles faziam uma moda pra cantar no chiba. O chiba era um meio de descobrir segredos, com melodia.”

Dom e tradição

Além da música e da poesia, Seu Amélio é conhecido na cidade pelo pé-de-moleque de gengibre que faz quase todos os dias. Ao longo da vida, como muitos mestres cirandeiros, foi lavrador e pescador. Chegou a tocar viola, mas com o trabalho árduo em Santos acabou deixando o instrumento de lado. Ficou com o pandeiro e a voz. E a memória, de que faz instrumento para a preservação de sua cultura:

“Isso aí vale ouro, né? Porque é difícil pessoas que tenham conhecimento das coisas passadas. Não tem, é muito raro você achar. Você chega pra uma pessoa da minha idade, e diz: ‘você se lembra de alguma coisa?’, ‘ah, não me lembro’. Isso aí são memórias que a pessoa vive praquilo, né? Vive praquilo ali e guarda.”

Amélio vê com resignação o desaparecimento de velhas tradições, consciente de que os processos de mudança e transformação estão sempre em curso. Afirma que muitas danças que já não se vê na ciranda deixaram de existir ainda nas décadas de 1930 e 1940, como os “dois amantes”, o “gavião” e o “passarinho”. Mas faz o que pode para preservar o que aprendeu. Sua viola, por exemplo, presenteou ao filho de um amigo que demonstrou interesse no instrumento, e hoje já faz apresentações públicas no Brasil e no exterior.

“Tudo isso tem história que pouca gente sabe. E vai desaparecendo, porque pouca gente se interessa em aprender. A única coisa que a pessoa traz de si, da natureza, é a intuição, de cantar, de fazer um verso, isso aí é dom da natureza. O cara que sabe fazer, pra mim isso é uma beleza”, conta rindo da própria rima, com que descontrai o assunto sério.

“Agora eu vou inventar, vou ver se eu faço uma poesia da natureza. Vai ficar bonito, tenho certeza. Já tô mais ou menos pesquisando”,fala apontando para a própria cabeça. “O dia que eu estiver sentado no banquinho ali ela vem, aponta agora para o banquinho em frente à sua casa, o lugar preferido para criar seus versos. “Vou falar dos montes, dos vales, das nascentes, das plantas, dos manguezal, né? E chega, hein? Não filma mais não, vou ficar quieto agora. Você sabe que o sábio é aquele que fica quieto? O que fala muito erra. Eu já devo estar errando”, diz Seu Amélio, rindo mais uma vez e se despedindo da nossa equipe.

Zé Malvão, vida e viola

Cirandeiro Zé Malvão com viola em preto e branco

Em julho deste ano, nossa equipe esteve com o violeiro Zé Malvão.

Zé Malvão, 66 anos, é filho de Manoel Malvão, que tocava cavaquinho. “Muito mal”, segundo o filho. “Quem tocava mesmo era o Gervásio, esse era bom”, brinca.

O violeiro conta que a maioria dos bailes acontecia na casa do violeiro Gervásio, no Caboclo. “Ele que cantava, ele e o Alfredo. Cantavam por muitas horas.”

Ele lembra nomes como Seu Theóphilo, Dito Lapa, Antonio da Lília, Seu Bidico, Pardinho e o Mestre Marcolino. “Com esses cirandeiros eu toquei com quase todos.” Sobre o Seu Theóphilo, ele diz: “era lá do Cabral, morava aqui na Ilha. Morreu há uns oito anos, sabia muita música, danças extintas como dança do bodoque, dança do anu… Mas aí ele morreu, ninguém aprendeu. ”

Os bailes na roça foram minguando à medida que os mais velhos foram morrendo, segundo o violeiro. “Lá no Caboclo agora, morador antigo… só o meu irmão. Muita gente saiu da roça e veio pra cidade, não apenas do Caboclo, de todo lado.”

A vida na roça mudou. “Não tem mais roça em lugar nenhum, ninguém planta nada”, constata. “Quando eu tratava do bananal lá no sítio, tinha 4600 pés de banana, agora não tem mais nada.”

Os bailes

Zé Malvão lembra que os bailes tinham bebida, mas o povo não ‘bebia de travar’: “Dava bebida, mas controlada. Cachaça com cravo, canela e um monte de coisa. Tomava uma golada e saía faísca. Quem dava era o dono da casa. Muitos levavam bebida e escondiam no meio do mato. Às vezes dava briga por causa da bebida. E às vezes tinha briga por causa de mulher também. Mas era passageiro, não é igual agora, que usam arma. Bêbado não briga.”

Mas ficaram as boas memórias: “O baile era bom pra tocar, pra namorar, pra tudo.”

Zé Malvão não é muito de sair, só sai pra tocar. “Nunca fui de ficar em bar. Tocar é bom. Se tá tocando, tá distraindo. Melhor que ficar martelando certas coisas.” Ele relembra antigos conhecidos, como Zé Pereira, Gervásio, Seu Júlio, Paulo Simão. “Só eu, graças a Deus, que vim pra cidade e tô vivo ainda.”

O vídeo abaixo mostra Zé Malvão em sua casa na Ilha das Cobras e também no Sítio Bela Vista, antiga propriedade da família. Relembrando todas essas histórias, ele deu também uma palhinha com sua viola – instrumento que domina como poucos.

Seu Bento e o tempo do chiba

Seu Bento

Aos 91 anos, Seu Bento Cananeia é um homem de sorriso fácil. Se diverte com as histórias que conta de um tempo em que os bailes de chiba iniciavam com rezas e ladainhas. O tratamento de um câncer de pele na face e a audição debilitada não diminuem a disposição do morador da Jabaquara, que entre um causo e outro toca pandeiro, canta e sapateia velhas modas.

Seu Bento, que não faz parte de nenhum grupo de ciranda em atividade, tocou com grandes mestres da música de Paraty, como o Seu Marcolino, o Chidite, o Dito Gervásio, o Alfredo Norato e o Paulo Simão. “Paulo Simão era canhoto, mas era bom na viola”, conta. “Ele ponteava na viola, a viola faltava falar”.

Nascido na fazenda do Engenho D’água, na zona costeira de Paraty, Seu Bento se mudou cedo para a cidade, onde cresceu no que é hoje o Centro Histórico. Conta que aos 8 ou 9 anos, “uma criança meio fraquinha”, seu pai o trouxe à sede do município para ser criado pela família de um proprietário de hotel. Nunca deixou de visitar a família na roça, que pouco depois acabou se mudando também para a cidade.

Os bailes na roça e a cidade

Embora tenha frequentado os bailes nos clubes da cidade, era na roça que encontrava o divertimento preferido. “Aqui [na cidade] era mais baile do pessoal de mais poder, né? (…) Tinha o clube da cidade, era ali onde agora é a Casa de Cultura, ali tinha um baile. Aqui tinha dois clubes, um dizia que era do PTB e o outro era do PSD [risos]. Naquele tempo, né, que tinha aquela política antiga.”

Nos bailes da roça, por morar na cidade, Seu Bento e os amigos nem sempre eram bem recebidos pelos homens do lugar. “O pobre que fazia ciranda, o pessoal da roça, e o da cidade ia pra lá pra poder arrumar as garotinhas [risos]. Então o pessoal da roça tinha raiva.”

“Eu mesmo fui pra uma ciranda uma vez aqui no Bom Jardim”, conta. “Eu com seis rapazes comigo, peguemo uma canoa e fomos. E chegando lá eles soltaram nossa canoa, fizeram até porcaria dentro da canoa pra tocar nós de lá. Então, quer dizer, eles tinham raiva da gente quando o pessoal da cidade ia pra ciranda, tocar ciranda.”

A distância não era impedimento para participar dos bailes, de canoa ou a pé. “Eu fui num baile uma vez, com outro rapaz, no Sertão do Buriti, lá no final daquela divisa de Ubatuba com Paraty. Nós saímos daqui oito horas, chegamos lá duas horas da madrugada. Às duas horas da madrugada nós botemos pra dançar, dançamos até de manhã.”

E mesmo no tempo em que trabalhou embarcado, como marinheiro, Seu Bento fazia o possível para não ficar de fora dos melhores bailes. “Eu trabalhava embarcado no mar e já tinha um grupozinho meu que ia me dizer onde [tinha ciranda]. Que eu vinha de viagem e diziam ‘ó, tem baile hoje em tal lugar’. Aí a gente enchia, comprava um litro de groselha com pinga e levava pra beber pra poder ficar meio ativo, né? Pra poder ficar até de manhã [risos].”

Brincadeira de pobre

“A gente gostava, né, da brincadeira. Era a única brincadeira que o pobre tinha”, lembra Seu Bento com saudade. “A ciranda na roça era o seguinte, combinava quatro, cinco pessoas, um dava rosca (…), dava cinquenta centavos, quer dizer, no tempo era mil-réis, né, juntava um dinheirinho e comprava dois sacos de rosca pra poder fazer o chiba, fazer o baile, a ciranda. Ciranda era chiba. Ciranda foi falado agora, há pouco tempo. Primeiro era chiba.”

“Eles mandavam fazer aqueles tamancos grandes, aqueles senhores de pé grosso, e batiam que arrebentavam até tábua de assoalho (risos). As damas, aquelas senhoras, com vestidinho, aquela saiazinha amarrada aqui, né, o bolsinho aqui pra botar o cachimbinho dela pra fumar, era assim. E elas rodavam pra um lado, e uma vem pra cá, e outra vai pra lá, e vem pra cá… era bonito!”

Uma volta pelo passado e presente da ciranda com Seu Adail

Em julho deste ano, a equipe do projeto Paraty Ciranda se encontrou com Seu Adail, do grupo Os Caiçaras.

Multi-instrumentista, Seu Adail contou a história de sua vinda à cidade, o primeiro contato com o cavaquinho. “Não sou muito de cantar, toco viola, violão, cavaquinho, pandeiro. Sou útil ao grupo.”

Durante a conversa, realizada próxima à capela de Nossa Senhora das Dores, no Centro Histórico de Paraty, Seu Adail relembrou a vida na roça e na cidade nos tempos anteriores à Rio-Santos, os grandes nomes da Ciranda e os parentes e amigos que dividiram com ele a paixão pela música caiçara, como Seu Lourenço e seu pai Honório Bagre, Seu Anselmo, Seu Candinho, Benedito Virgulino,  Seu Bastião Justino dos Santos, Antonio Lidônio, Seu José Lopes, Vergino e o violeiro João Eva, do Rio Pequeno — “um grande mestre de ciranda e Reis.”

“Comecei a me envolver com ciranda na minha casa. Meu pai fazia baile de São João. Eu tocava pandeiro, meu vizinho tocava violão. Aprendi a tocar violão com ele, ali pelos 17 anos, para a Folia de Reis. Daí comecei a acompanhar.”

Chiba até o amanhecer

Adail falou um pouco sobre o chiba:

“Todos os bailes de roça eram chamados de chiba. À meia noite parava tudo e todo mundo ia pra mesa pra tomar café com biju. Às vezes uma polenta de milho. E depois continuava o baile de novo, até amanhecer o dia. Não cheguei a pegar o Chiba. O chiba foi extinto porque era uma dança mais de escravo. Era cansativa. Tinha que levar duas mudas de roupas. O dono da casa exigia, ‘se você não for dançar o chiba, não vai dançar as miudezas’ [ciranda, caranguejo, dança do chapéu, canoa, tontinha, verde-limão, choradinha…], porque as pessoas queriam fugir do chiba. Por isso o chiba aos poucos foi sumindo, e ficou só a ciranda, que o pessoal achava mais suave, mais tranquila.”

E sobre os bailes, ele lembra:

“Os bailes eram geralmente na sala. Nem sempre cabia, às vezes ficava na janela, olhando… Assim. Às vezes meu pai cortava cana pra fazer café de caldo de cana à noite. Dava café pra todo mundo. Minha mãe fazia ‘beiju’. Chaleirão de café, botava lá pras pessoas. Meia-noite e de manhã cedo. Toda casa era assim. Quase toda.”

Seu Adail acha que, depois da migração do povo para a cidade, a ciranda “deu uma baixa total”. Mas algumas pessoas, como o Marcolino, Joaquim (Pontal), Zezinho Chocalho começaram a valorizar mais. Com a Rio-Santos, em 1972, surgiram novos grupos. “A gente começou a se entrosar em Paraty depois de 1975-76. Aí veio um povo mais novo e a sociedade começou a se integrar mais com o pessoal ‘selvagem’.. Aí ficou ‘domesticado’ e ficou tudo certo [risos].”

Seu Anselmo, homem de festa

O cirandeiro  lembra com emoção do pai, Anselmo Ricardo Soares: “Meu pai era um homem de festa. Morreu com 88 anos, se você conhecesse ele… Minha casa era de todo mundo. Tinha uma mesona na cozinha, qualquer um que chegava em casa tava chegado. Era assim.” O pai vendeu o sítio da família no final da década de 1970, e Adail veio então para a cidade:

“A gente vendia banana, mas a banana caiu de preço. O pai resolveu vender, falou que podíamos passar fome, necessidade. Ele disse ‘A gente dá um jeito, você aprende a dirigir, vai trabalhar de motorista…’. Meu pai me ajudou a comprar meu primeiro carro, um Fusquinha. Não deu muito certo, e comprei um ponto na feirinha ali. Comecei a vender cachaça, cerveja… Passou um senhor mineiro, com um cavaquinho… Perguntei se ele queria vender. E ele vendeu. Comecei a tocar… Daí aprendi esse pouco que eu sei.”

Seu Leônidas, do grupo Os Caiçaras, viu o feirante tocar e o chamou para tocar com o grupo. “E tô aí até hoje brincando com eles.”

Seu Adail faz uma curiosa leitura sobre as mudanças nos hábitos e na paisagem da cidade desde sua infância. “Sinceramente, nas roças que vejo por aí eu não vejo mais nada…todo mundo moderno, todo mundo rico, não vejo ninguém pobre mais. Pobreza era antigamente, cheguei a comer angu de gordura. Muitas vezes comi isso. A nossa vida era essa.”

Sobre o legado da ciranda, Adail acha fundamental que a cultura caiçara seja apresentada às novas gerações. “Temos que passar pra garotada pra não deixar morrer, porque muita coisa já sumiu.”

Confira no vídeo abaixo alguns trechos do depoimento de Seu Adail:

Com a bênção de Seu Ditinho das Canoas

Numa agradável manhã de julho deste ano, nossa equipe esteve na casa do violeiro Benedito Ricardo de Jesus, o Seu Ditinho das Canoas, na Ilha das Cobras, em Paraty.

A conversa com ele foi gravada em vídeo e seus melhores trechos serão exibidos na exposição Os Nomes da Ciranda, a partir de setembro, no Forte Defensor Perpétuo, em Paraty.

Seu Ditinho é membro do grupo Os Sete Unidos, fundado por ele em 1970 juntamente com o cunhado Benedito Bento (Dito do Pandeiro), que tem em seu repertório músicas folclóricas de Paraty. Além deles, o grupo é composto por Seu João Bento no 1º cavaquinho, Seu Joãozinho no 2º cavaquinho, Seu Cantarelle no violão, Seu Detinho no bandolim e Seu Ricardinho na timba.

Nessa conversa, seu Ditinho citou nomes históricos da ciranda de Paraty como Seu Verino, os irmãos Pedro, Antonio e João Jeremias, tocadores de caixa, Zezinho da Ramira, Chidite, Benedito Eliziário e o lendário Zezinho Chocalho, que morreu de enfarte enquanto dançava.

“O melhor tocador de viola aqui era o Chidite e o Eliziário. Depois deles, o Zezinho. Dizem que o Marcolino também era bom”, diz ele. Sobre o formato dos grupos no início dos 70, Ditinho diz que nessa época não havia grupos fixos de cirandeiros. “Nessa época não tinha grupo. Era um cata-cá. Na roça, a gente pegava o violão e tocava. Na época, todo mundo na roça sabia tocar um violão. Viola era difícil, mas cavaquinho e violão quase todo mundo faz.”

Os ritmos das festas variavam, segundo Ditinho. “Samba… E depois do samba tinha a ciranda: caranguejo, ciranda, marrafa, a dança do Arara, o Felipe… A folia era só na roça. Ilha Grande, Praia Vermelha, Campinho, nessas roça tudo.”

Ditinho aprendeu a tocar viola com seu pai, numa viola de 10 cordas. “Tenho um irmão que tocava viola muito bem, o Milton, mas não toca há muitos anos. Meu irmão Hugo era bom no cavaquinho. Cada violeiro tem uma batida diferente, uma cantoria diferente. Um não copia o outro.”

Seu Ditinho falou também das dificuldades crescentes de se tocar na Festa do Divino:  “o festeiro é que pagava a gente. Depois começaram a jogar para a prefeitura. E aí foi falhando o pagamento, falhando, falhando…Passa ano após ano e não chega a verba. Como é que faz? Se eu pendurar a chuteira, não tem outro grupo aí. Não conheço.”

Ele fala também da transformação da festa: “Não tem mais a bandeira na roça, só a novena na cidade. As festas viraram comércio. Tirando a parte religiosa, a Igreja, o resto é comércio. Antigamente, nada era vendido. Tudo era dado. ”

Sobre os hábitos da época, Seu Ditinho acredita que naquela época o comportamento das pessoas em geral era melhor do que o que se vê hoje: “Era aquele respeito total, uma coisa incrível. ‘Bênção, pai. Bênção, mãe’. Agora, acabou. ”

Confira um trecho do depoimento do Seu Ditinho, que durante todo o tempo da entrevista foi acompanhado por Dona Maria, sua companheira há cinco décadas.