Zé Malvão, vida e viola

Cirandeiro Zé Malvão com viola em preto e branco

Em julho deste ano, nossa equipe esteve com o violeiro Zé Malvão.

Zé Malvão, 66 anos, é filho de Manoel Malvão, que tocava cavaquinho. “Muito mal”, segundo o filho. “Quem tocava mesmo era o Gervásio, esse era bom”, brinca.

O violeiro conta que a maioria dos bailes acontecia na casa do violeiro Gervásio, no Caboclo. “Ele que cantava, ele e o Alfredo. Cantavam por muitas horas.”

Ele lembra nomes como Seu Theóphilo, Dito Lapa, Antonio da Lília, Seu Bidico, Pardinho e o Mestre Marcolino. “Com esses cirandeiros eu toquei com quase todos.” Sobre o Seu Theóphilo, ele diz: “era lá do Cabral, morava aqui na Ilha. Morreu há uns oito anos, sabia muita música, danças extintas como dança do bodoque, dança do anu… Mas aí ele morreu, ninguém aprendeu. ”

Os bailes na roça foram minguando à medida que os mais velhos foram morrendo, segundo o violeiro. “Lá no Caboclo agora, morador antigo… só o meu irmão. Muita gente saiu da roça e veio pra cidade, não apenas do Caboclo, de todo lado.”

A vida na roça mudou. “Não tem mais roça em lugar nenhum, ninguém planta nada”, constata. “Quando eu tratava do bananal lá no sítio, tinha 4600 pés de banana, agora não tem mais nada.”

Os bailes

Zé Malvão lembra que os bailes tinham bebida, mas o povo não ‘bebia de travar’: “Dava bebida, mas controlada. Cachaça com cravo, canela e um monte de coisa. Tomava uma golada e saía faísca. Quem dava era o dono da casa. Muitos levavam bebida e escondiam no meio do mato. Às vezes dava briga por causa da bebida. E às vezes tinha briga por causa de mulher também. Mas era passageiro, não é igual agora, que usam arma. Bêbado não briga.”

Mas ficaram as boas memórias: “O baile era bom pra tocar, pra namorar, pra tudo.”

Zé Malvão não é muito de sair, só sai pra tocar. “Nunca fui de ficar em bar. Tocar é bom. Se tá tocando, tá distraindo. Melhor que ficar martelando certas coisas.” Ele relembra antigos conhecidos, como Zé Pereira, Gervásio, Seu Júlio, Paulo Simão. “Só eu, graças a Deus, que vim pra cidade e tô vivo ainda.”

O vídeo abaixo mostra Zé Malvão em sua casa na Ilha das Cobras e também no Sítio Bela Vista, antiga propriedade da família. Relembrando todas essas histórias, ele deu também uma palhinha com sua viola – instrumento que domina como poucos.

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A ciranda e as folias

Festa do Divino em Paraty, junho de 2012

Foi tocando nas folias que muitos cirandeiros se tornaram íntimos de seus instrumentos. Outrora atuantes na zona rural e na sede do município o ano inteiro, hoje já não se encontram folias de Reis em Paraty. Na Festa do Divino (acima), a folia ficou restrita à cidade.

As folias eram incumbidas de percorrer as casas em busca de donativos para as festas religiosas. Levavam música e símbolos sacros, como as bandeiras. À noite os pousos quase sempre acabavam em bailes. “Folia de Reis sempre acabava no baile. O último que me lembro, na casa do Seu Gervásio, começaram a dançar 1h e só acabou meio-dia. Sol quente e a turma dançando.”, relembra o violeiro Zé Malvão.

Seu Amélio, referência na ciranda de Paraty e um dos mestres de folia ainda vivo, conta que havia grupos de folia em todas as localidades do município, às vezes mais de uma. O cirandeiro, líder do Grupo Cana Verde, começou a tocar na Folia de Reis, que aprendeu com o pai, e formou um grupo em casa com outros dois irmãos.

“Com dez anos eu fui ser tripe de folia. Acompanhava as folias pela roça cantando tripe e tocando pandeiro. Comecei a tocar pandeiro com seis anos. (…) Com 17 anos eu era mestre da folia de reis. Nós tinha um grupo muito bom, com viola, bandolim, cavaquinho, violão, pandeiro, triângulo, reco-reco. Isso lá na Graúna.” — relata Seu Amélio.

Seu Adail, do grupo Os Caiçaras, veio para a cidade em 1980 e se entregou à folia: “Lá conheci o Seu Benedito Cravo, benzedor. Mestre de reis, fizemos sucesso em Tarituba. Um excelente mestre. Maravilhoso. Tocamos reis na Barra Grande e Tarituba.”

Hoje são os grupos de ciranda, como os Coroas Cirandeiros e Os Sete Unidos, que mantêm viva a tradição musical da Folia de Reis, embora já não haja saídas de bandeiras. Prestam tributo aos mestres e contramestres foliões, como Antônio Tomás, Moisés, Alisário, Mané Quebra-Pau, Virgulino, Zé Veiga, João Eva, Bonifácio, Oliveira, Eliseu, Cento e Vinte, Mané Gato, Joãozinho da Guilhermina, Bastião Justino, Benedito Eliziário, Pedro Severino, Chidite, Chibidi, Lotério, José Daniel, José Lopes, José Maia, Manoel Rita. E aos mestres ainda vivos, como Seu Amélio e Seu Lourenço, da Barra Grande, a quem também registramos.

Seu Bento e o tempo do chiba

Seu Bento

Aos 91 anos, Seu Bento Cananeia é um homem de sorriso fácil. Se diverte com as histórias que conta de um tempo em que os bailes de chiba iniciavam com rezas e ladainhas. O tratamento de um câncer de pele na face e a audição debilitada não diminuem a disposição do morador da Jabaquara, que entre um causo e outro toca pandeiro, canta e sapateia velhas modas.

Seu Bento, que não faz parte de nenhum grupo de ciranda em atividade, tocou com grandes mestres da música de Paraty, como o Seu Marcolino, o Chidite, o Dito Gervásio, o Alfredo Norato e o Paulo Simão. “Paulo Simão era canhoto, mas era bom na viola”, conta. “Ele ponteava na viola, a viola faltava falar”.

Nascido na fazenda do Engenho D’água, na zona costeira de Paraty, Seu Bento se mudou cedo para a cidade, onde cresceu no que é hoje o Centro Histórico. Conta que aos 8 ou 9 anos, “uma criança meio fraquinha”, seu pai o trouxe à sede do município para ser criado pela família de um proprietário de hotel. Nunca deixou de visitar a família na roça, que pouco depois acabou se mudando também para a cidade.

Os bailes na roça e a cidade

Embora tenha frequentado os bailes nos clubes da cidade, era na roça que encontrava o divertimento preferido. “Aqui [na cidade] era mais baile do pessoal de mais poder, né? (…) Tinha o clube da cidade, era ali onde agora é a Casa de Cultura, ali tinha um baile. Aqui tinha dois clubes, um dizia que era do PTB e o outro era do PSD [risos]. Naquele tempo, né, que tinha aquela política antiga.”

Nos bailes da roça, por morar na cidade, Seu Bento e os amigos nem sempre eram bem recebidos pelos homens do lugar. “O pobre que fazia ciranda, o pessoal da roça, e o da cidade ia pra lá pra poder arrumar as garotinhas [risos]. Então o pessoal da roça tinha raiva.”

“Eu mesmo fui pra uma ciranda uma vez aqui no Bom Jardim”, conta. “Eu com seis rapazes comigo, peguemo uma canoa e fomos. E chegando lá eles soltaram nossa canoa, fizeram até porcaria dentro da canoa pra tocar nós de lá. Então, quer dizer, eles tinham raiva da gente quando o pessoal da cidade ia pra ciranda, tocar ciranda.”

A distância não era impedimento para participar dos bailes, de canoa ou a pé. “Eu fui num baile uma vez, com outro rapaz, no Sertão do Buriti, lá no final daquela divisa de Ubatuba com Paraty. Nós saímos daqui oito horas, chegamos lá duas horas da madrugada. Às duas horas da madrugada nós botemos pra dançar, dançamos até de manhã.”

E mesmo no tempo em que trabalhou embarcado, como marinheiro, Seu Bento fazia o possível para não ficar de fora dos melhores bailes. “Eu trabalhava embarcado no mar e já tinha um grupozinho meu que ia me dizer onde [tinha ciranda]. Que eu vinha de viagem e diziam ‘ó, tem baile hoje em tal lugar’. Aí a gente enchia, comprava um litro de groselha com pinga e levava pra beber pra poder ficar meio ativo, né? Pra poder ficar até de manhã [risos].”

Brincadeira de pobre

“A gente gostava, né, da brincadeira. Era a única brincadeira que o pobre tinha”, lembra Seu Bento com saudade. “A ciranda na roça era o seguinte, combinava quatro, cinco pessoas, um dava rosca (…), dava cinquenta centavos, quer dizer, no tempo era mil-réis, né, juntava um dinheirinho e comprava dois sacos de rosca pra poder fazer o chiba, fazer o baile, a ciranda. Ciranda era chiba. Ciranda foi falado agora, há pouco tempo. Primeiro era chiba.”

“Eles mandavam fazer aqueles tamancos grandes, aqueles senhores de pé grosso, e batiam que arrebentavam até tábua de assoalho (risos). As damas, aquelas senhoras, com vestidinho, aquela saiazinha amarrada aqui, né, o bolsinho aqui pra botar o cachimbinho dela pra fumar, era assim. E elas rodavam pra um lado, e uma vem pra cá, e outra vai pra lá, e vem pra cá… era bonito!”

Como é uma casa caiçara?

Um dos espaços previstos para a exposição Os Nomes da Ciranda é uma reprodução do ambiente de uma típica casa da nossa zona rural.

Os esboços abaixo, feitos pelo arquiteto e museólogo  Julio Cezar Neto Dantas — diretor do Museu de Arte Sacra e do Museu Forte Defensor Perpétuo de Paraty, indicam alguns elementos que estarão presentes nesse espaço: a bandeira de folia, o oratório, a marquesa (um tipo de sofá sem encosto), o lampião, fotos de família.

Essas imagens são uma das referências utilizadas pela museóloga Isabela Marques Leite de Souza e por toda a equipe de pesquisadores do projeto para a composição da expografia de “Os Nomes da Ciranda”.

A exposição, parte do Projeto Paraty Ciranda, estará aberta ao público a partir de 28 de setembro, no Forte Defensor Perpétuo, em Paraty.

Uma volta pelo passado e presente da ciranda com Seu Adail

Em julho deste ano, a equipe do projeto Paraty Ciranda se encontrou com Seu Adail, do grupo Os Caiçaras.

Multi-instrumentista, Seu Adail contou a história de sua vinda à cidade, o primeiro contato com o cavaquinho. “Não sou muito de cantar, toco viola, violão, cavaquinho, pandeiro. Sou útil ao grupo.”

Durante a conversa, realizada próxima à capela de Nossa Senhora das Dores, no Centro Histórico de Paraty, Seu Adail relembrou a vida na roça e na cidade nos tempos anteriores à Rio-Santos, os grandes nomes da Ciranda e os parentes e amigos que dividiram com ele a paixão pela música caiçara, como Seu Lourenço e seu pai Honório Bagre, Seu Anselmo, Seu Candinho, Benedito Virgulino,  Seu Bastião Justino dos Santos, Antonio Lidônio, Seu José Lopes, Vergino e o violeiro João Eva, do Rio Pequeno — “um grande mestre de ciranda e Reis.”

“Comecei a me envolver com ciranda na minha casa. Meu pai fazia baile de São João. Eu tocava pandeiro, meu vizinho tocava violão. Aprendi a tocar violão com ele, ali pelos 17 anos, para a Folia de Reis. Daí comecei a acompanhar.”

Chiba até o amanhecer

Adail falou um pouco sobre o chiba:

“Todos os bailes de roça eram chamados de chiba. À meia noite parava tudo e todo mundo ia pra mesa pra tomar café com biju. Às vezes uma polenta de milho. E depois continuava o baile de novo, até amanhecer o dia. Não cheguei a pegar o Chiba. O chiba foi extinto porque era uma dança mais de escravo. Era cansativa. Tinha que levar duas mudas de roupas. O dono da casa exigia, ‘se você não for dançar o chiba, não vai dançar as miudezas’ [ciranda, caranguejo, dança do chapéu, canoa, tontinha, verde-limão, choradinha…], porque as pessoas queriam fugir do chiba. Por isso o chiba aos poucos foi sumindo, e ficou só a ciranda, que o pessoal achava mais suave, mais tranquila.”

E sobre os bailes, ele lembra:

“Os bailes eram geralmente na sala. Nem sempre cabia, às vezes ficava na janela, olhando… Assim. Às vezes meu pai cortava cana pra fazer café de caldo de cana à noite. Dava café pra todo mundo. Minha mãe fazia ‘beiju’. Chaleirão de café, botava lá pras pessoas. Meia-noite e de manhã cedo. Toda casa era assim. Quase toda.”

Seu Adail acha que, depois da migração do povo para a cidade, a ciranda “deu uma baixa total”. Mas algumas pessoas, como o Marcolino, Joaquim (Pontal), Zezinho Chocalho começaram a valorizar mais. Com a Rio-Santos, em 1972, surgiram novos grupos. “A gente começou a se entrosar em Paraty depois de 1975-76. Aí veio um povo mais novo e a sociedade começou a se integrar mais com o pessoal ‘selvagem’.. Aí ficou ‘domesticado’ e ficou tudo certo [risos].”

Seu Anselmo, homem de festa

O cirandeiro  lembra com emoção do pai, Anselmo Ricardo Soares: “Meu pai era um homem de festa. Morreu com 88 anos, se você conhecesse ele… Minha casa era de todo mundo. Tinha uma mesona na cozinha, qualquer um que chegava em casa tava chegado. Era assim.” O pai vendeu o sítio da família no final da década de 1970, e Adail veio então para a cidade:

“A gente vendia banana, mas a banana caiu de preço. O pai resolveu vender, falou que podíamos passar fome, necessidade. Ele disse ‘A gente dá um jeito, você aprende a dirigir, vai trabalhar de motorista…’. Meu pai me ajudou a comprar meu primeiro carro, um Fusquinha. Não deu muito certo, e comprei um ponto na feirinha ali. Comecei a vender cachaça, cerveja… Passou um senhor mineiro, com um cavaquinho… Perguntei se ele queria vender. E ele vendeu. Comecei a tocar… Daí aprendi esse pouco que eu sei.”

Seu Leônidas, do grupo Os Caiçaras, viu o feirante tocar e o chamou para tocar com o grupo. “E tô aí até hoje brincando com eles.”

Seu Adail faz uma curiosa leitura sobre as mudanças nos hábitos e na paisagem da cidade desde sua infância. “Sinceramente, nas roças que vejo por aí eu não vejo mais nada…todo mundo moderno, todo mundo rico, não vejo ninguém pobre mais. Pobreza era antigamente, cheguei a comer angu de gordura. Muitas vezes comi isso. A nossa vida era essa.”

Sobre o legado da ciranda, Adail acha fundamental que a cultura caiçara seja apresentada às novas gerações. “Temos que passar pra garotada pra não deixar morrer, porque muita coisa já sumiu.”

Confira no vídeo abaixo alguns trechos do depoimento de Seu Adail:

A Ciranda na Festa do Divino

Uma das tradições mais conhecidas de Paraty, a Festa do Divino Espírito Santo está em vias de ser reconhecida pelo IPHAN como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. Notória pela mobilização popular e pela extensão de seu calendário festivo, que inicia tão logo é terminada a edição anterior, a Festa do Divino congrega celebrações e formas de expressão religiosas e profanas, dentre as quais a ciranda.

A ciranda se associa à Festa do Divino em pelo menos dois contextos: em apresentações na Praça da Matriz durante os dez dias de Festa, após as celebrações da novena; e por ocasião dos pousos da Folia do Divino, outrora um de seus elementos mais importantes, mas que hoje já não mais percorre a zona rural nos meses que antecedem a Festa.

O cirandeiro Seu Ditinho, violeiro do Grupo Sete Unidos e natural do Bom Jardim, já foi festeiro do Divino e lembra com saudade do tempo das Folias: “Quando a Folia passava, era a maior festa. Da Praia Vermelha até o Bom Jardim, levava uns 20 dias.”

Seu Ditinho cita como grandes mestres foliões Benedito Eliziário, Pedro Severino e Chidite, músicos que também se tornaram referências na ciranda.

Em cada pouso da Folia, a bandeira conduzida às casas dos devotos, servia-se comida e oferecia-se o pernoite. Após o jantar vinha o baile de ciranda, e a pombinha do mastro era coberta com o próprio pano da bandeira, em respeito ao Divino Espírito Santo (Diuner Mello, Festa do Divino Espírito Santo em Paraty: manual do festeiro, 2003).

Há ainda as danças para o Imperador coroado, na quadra ao lado da Igreja da Matriz: a dança dos velhos, a dança das fitas e o marrapaiá. Antigamente dançava-se ainda a Dança dos Coquinhos, a Dança das Jardineiras e o Caiapó. Tudo isso animado pela presença do Boi-de-pano, da Miota, do Cavalinho e do Peneirinha.

Fotos: Festa do Divino em Paraty, final da década de 1970. Acervo Julio Cezar Neto Dantas

Equipe apresenta o projeto no encontro Roda de Memórias

Na tarde da última quarta-feira, a equipe do projeto marcou presença no encontro Roda de Memórias, na sede do Escritório Técnico Costa Verde/Iphan em Paraty. O evento contou com representantes do poder público e de diversas entidades ligadas à Cultura na cidade.

No evento, André Bazzanela, técnico do Iphan, apresentou o projeto da Casa do Patrimônio em Paraty, um projeto pedagógico e de educação patrimonial com a proposta de estabelecer novas formas de relacionamento do Iphan com a sociedade.

A equipe do Projeto Paraty Ciranda apresentou sua pesquisa e o mapeamento das histórias de cirandeiros e seus bailes da roça e na cidade. Foram apresentados o banco de dados, nosso blog e  o primeiro vídeo do projeto, com o Seu Ditinho.

O encontro teve também a apresentação de entrevistas do documentário Memórias de Paraty, de Nena Gama e Izabel Costa Cermelli, que conta com depoimentos de antigos moradores da cidade.

Confira aqui a apresentação do projeto.